Resumo:
As discussões sobre a temática étnico-racial têm tensionado os modos de produção de conhecimento no Brasil e revelado lacunas na formação em Psicologia, cujos currículos permanecem majoritariamente orientados por epistemologias eurocentradas. Este estudo teve como objetivo compreender como a temática étnico-racial se manifesta nos documentos institucionais e curriculares da formação em Psicologia em universidades públicas federais brasileiras. Foram analisados Planos de Desenvolvimento Institucional (PDIs) e Projetos Pedagógicos de Curso (PPCs) de cinco universidades públicas federais, uma em cada região do país, por meio de análise documental inspirada na concepção foucaultiana de documento como prática discursiva, articulada às perspectivas decolonial e afrocentrada. Os referenciais teóricos mobilizados incluem autoras(es) como Conceição Evaristo, Lélia Gonzalez, Nilma Lino Gomes, Frantz Fanon e Molefi Kete Asante. Os resultados indicaram que, nos PDIs, a diversidade é abordada de forma genérica, vinculada a políticas de acesso e permanência, sem orientar efetivamente as propostas formativas para o enfrentamento do racismo estrutural. Nos PPCs, observou-se presença pontual de disciplinas, referências e linhas de pesquisa relacionadas ao tema, sem que este se configure como eixo estruturante da formação. Conclui-se que a discussão sobre a temática étnico-racial, marcada por presenças, ausências e silenciamentos, evidencia a hegemonia de uma racionalidade branca e eurocentrada e demanda reposicionamento epistemológico sustentado pela decolonialidade e pela afrocentricidade, capazes de promover uma formação psicológica crítica e comprometida com a transformação antirracista.