Resumo:
Esta tese analisa como o Programa Nacional de Educação Empreendedora (PNEE),
desenvolvido pelo Sebrae em parceria com o Ministério da Educação, fomenta o discurso do empreendedorismo na Educação Básica e produz subjetividades alinhadas à racionalidade neoliberal. O arquivo empírico é composto pelos Cadernos de Atividades do Jovem Empreendedor (2021), tomados como documentos/monumentos. Com base em Michel Foucault e em autores que dialogam com suas teorizações, o estudo adota a perspectiva de inspiração genealógica para compreender como as práticas empreendedoras presentes nesses Cadernos funcionam como tecnologias do eu – modos de agir sobre si –, que instauram uma matriz performática de conduta. A análise identifica quatro tecnologias centrais: automatizarse, empreender-se, resilienciar-se e especular-se, pelas quais o sujeito é interpelado a gerir emoções, tempo e desejos como capitais de si. Os resultados demonstram que a educação empreendedora atualiza o dispositivo escolar, transformando a liberdade em imperativo de autogoverno e a ética em gestão emocional, fabricando sujeitos previsíveis, produtivos e emocionalmente adaptáveis. Conclui-se que, embora o discurso do empreendedorismo opere
como armadilha de adesão voluntária à racionalidade neoliberal, a escola permanece como espaço possível de resistência e reinvenção.