Resumo:
Esta tese é fruto de uma pesquisa sobre o conceito Indetectável =
Intransmissível (I=I) na vida de homens gays e bissexuais que vivem com HIV
(HGBVHIV) e que se encontram com carga viral indetectável, assim como na
perspectiva de profissionais de saúde de dois serviços especializados em HIV
localizados em Porto Alegre/RS e na região metropolitana. O objetivo principal
foi investigar os sentidos e significados atribuídos ao I=I na vida dos HGBVHIV,
bem como compreender como esse conceito tem sido construído e comunicado
nos contextos clínicos. O I=I é uma estratégia de prevenção que afirma que
pessoas vivendo com HIV que fazem uso regular da terapia antirretroviral
(TARV) e alcançam carga viral indetectável não transmitem o vírus por via
sexual. O Brasil é internacionalmente reconhecido por ofertar gratuitamente a
TARV pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde 1996, tendo publicado, em
2019, uma nota informativa que reforça a importância do reconhecimento do I=I,
ratificando que tal conhecimento contribui positivamente para as relações
interpessoais de pessoas vivendo com HIV, abrindo novas possibilidades de
vivência com o vírus, além de combater estigma. A pesquisa de campo teve
caráter qualitativo e baseou-se nas narrativas de 18 participantes — 11
HGBVHIV e 7 profissionais de saúde —, resultando na elaboração de dois
artigos científicos. O primeiro artigo, centrado nas narrativas dos HGBVHIV,
discute os sentidos e significados do I=I na experiência daqueles cuja carga viral
se encontrava indetectável. O estudo revela que a compreensão da
indetectabilidade nem sempre se traduz, de forma consistente, na noção de
intransmissibilidade. Para que o potencial transformador da mensagem I=I no
combate ao estigma relacionado ao HIV seja plenamente alcançado, o artigo
destaca a necessidade de aperfeiçoar sua comunicação, sugerindo, inclusive,
sua reformulação para “I=0”, a fim de enfatizar a ideia de risco zero de
transmissão sexual. O segundo artigo examina, com base em narrativas de
HGBVHIV e de profissionais da saúde, como o conhecimento sobre o I=I é
construído, interpretado e negociado entre esses dois grupos. O estudo
evidencia uma construção fragmentada e frequentemente desalinhada do
conceito, apontando a urgência de uma comunicação mais clara e da validação
do termo "intransmissível", como estratégia para empoderar pacientes, promover
autonomia sexual e enfrentar o estigma. Conclui-se que, embora o I=I seja uma
estratégia de prevenção capaz de promover qualidade de vida e bem-estar às
pessoas vivendo com HIV, sua eficácia é limitada pelo estigma e pela
desinformação. Mesmo em contextos nos quais o conceito deveria estar mais
consolidado — como entre pessoas com carga viral indetectável e nas relações
entre pacientes e profissionais de saúde em serviços especializados —
prevalecem a desconfiança e o desalinhamento em relação ao conhecimento
científico. Observa-se um consenso quanto ao objetivo de alcançar a carga viral
indetectável com o uso da TARV, uma vez que isso preserva a imunidade e
previne o adoecimento por aids. Contudo, a segunda parte da equação — a
condição de intransmissibilidade — permanece insuficientemente
compreendida, mal internalizada e de forma ineficaz comunicada nos ambientes
clínicos, como se no final a equação fosse I≠I.