Resumen:
Esta dissertação investiga de que maneira as práticas de cuidado, afeto e
amorosidade constituem a experiência e a formação docente no campo da
Educação Infantil, tomando como contexto empírico uma escola municipal dessa
etapa e o cotidiano formativo de suas professoras. Parte-se da compreensão da
Educação Infantil como um campo específico de produção de saberes pedagógicos,
no qual a docência se constrói em meio a relações, tempos, corpos, materialidades
e afetos, exigindo processos formativos sensíveis às experiências vividas com bebês
e crianças pequenas. O objetivo geral da pesquisa foi compreender como práticas de cuidado, afeto e amorosidade atravessam e constituem a formação de professoras da Educação Infantil. Como objetivos específicos, buscou-se: (1) promover rodas de conversa, favorecendo a reflexão crítica das docentes sobre suas práticas pedagógicas e
sobre si mesmas como sujeitas da docência; (2) explorar a percepção da gestão
educacional acerca da importância e da viabilidade de ambientes formativos
acolhedores, atentos às dimensões do cuidado de si, da amorosidade e do afeto; e
(3) criar espaços de escrita que possibilitassem às professoras a produção de
sentidos sobre suas práticas pedagógicas, ancoradas no cotidiano da Educação
Infantil. A investigação desenvolveu-se em uma perspectiva qualitativa, com inspiração
(auto)narrativa, compreendendo a formação como experiência e a escrita como
prática formativa. O percurso metodológico foi constituído por dispositivos formativos
tais como rodas de conversa, cartas pedagógicas, baralho reflexivo, cadernos
personalizados e composições estéticas, entendidos não como instrumentos
técnicos, mas como proposições ético-estéticas que entrelaçam vida, docência e
formação. Do processo investigativo emergiram as categorias analíticas do tempo, da formação docente e da afetividade/cuidado de si. A análise dessas categorias foi sustentada por uma articulação teórica assumidamente audaciosa e, ao mesmo tempo,
preciosa entre Michel Foucault e Paulo Freire. Em Foucault, o cuidado de si é
compreendido como um exercício ético exigente, inquietante e não prescritivo, que
convoca o sujeito a uma atenção rigorosa sobre seus modos de ser, agir e pensar.
Em Freire, esse movimento se amplia na dimensão dialógica, relacional e política da
formação, sustentada pela amorosidade, pela escuta e pela responsabilidade com o
outro. Mantidas as distinções entre esses referenciais, sua articulação permitiu
compreender o cuidado de si como prática formativa coletiva, construída na relação
e no cotidiano da docência na Educação Infantil. A pesquisa evidenciou, ainda, que a estética constitui um princípio formativo e não um elemento ornamental, atravessando os modos de organizar os espaços, os tempos, os materiais e as experiências de formação, provocando deslocamentos e estranhamentos necessários aos processos reflexivos. No âmbito da produção técnica, foram elaborados materiais formativos diretamente vinculados às especificidades da Educação Infantil, tais como: cartas pedagógicas como
dispositivo de escrita de si e de partilha; baralho reflexivo como disparador de
conversas formativas; cadernos personalizados para registro das experiências
docentes; e composições estéticas que favoreceram ambientes de cuidado, escuta e
reflexão. Essas produções, articuladas à análise acadêmica, reforçam o caráter
profissional da pesquisa e oferecem contribuições para práticas formativas na
Educação Infantil, especialmente no que se refere à criação de espaços-tempo
formativos éticos, sensíveis e coletivos. Reconhece-se, neste estudo, que o cuidado de si, na perspectiva foucaultiana, configura-se como um exercício árduo, inquietante, por vezes doloroso e desafiador, que demanda tempo, rigor e continuidade. Embora essa dimensão não tenha sido explorada em profundidade como prática espiritual sistemática, a
pesquisa assumiu as cartas pedagógicas como um movimento inicial nesse
sentido, compreendendo-as como exercícios de atenção a si, de escrita e de
reflexão compartilhada. Conclui-se que, no contexto empírico desta pesquisa, o
cuidado de si, articulado ao afeto e à amorosidade, constituiu-se como eixo
estruturante da formação das professoras da Educação Infantil participantes,
afirmando a docência como espaço de criação, de cuidado e de invenção contínua.