Resumo:
Desde 2015, o Brasil, especialmente o Estado de Roraima, tem acolhido um número crescente de migrantes e refugiados da Venezuela, contando com mais de 134.071 pessoas interiorizadas até 2024, de acordo com dados do ACNUR e do CONARE. Esse influxo populacional gerou desafios significativos, como a escassez de infraestrutura e o impacto negativo nos serviços essenciais de educação, saúde e segurança. Dentre as consequências desse fenômeno migratório, destaca-se o aumento da prostituição, especialmente entre mulheres migrantes venezuelanas. Apesar da importância dessa temática, a construção identitária dessas mulheres no contexto da prostituição em Roraima é uma lacuna nos estudos linguísticos nesse contexto fronteiriço. Este estudo tem como objetivo conhecer as narrativas de mulheres migrantes da Venezuela e a construção identitária delas como migrantes, venezuelanas e prostitutas residentes na cidade de Boa Vista-RR, visando compreender os desafios enfrentados por elas como profissionais do sexo em terras brasileiras e como elas se representam em suas narrativas. Busca-se compreender os desafios que enfrentam como profissionais do sexo em um novo país e como se representam em suas narrativas. A pesquisa foi realizada por meio da escuta das narrativas de três prostitutas venezuelanas que atuam nas esquinas de Boa Vista. A análise das narrativas foi fundamentada nos estudos de Labov (1972), Bastos e Biar (2015) e Biar, Orton e Bastos (2021), adotando uma abordagem da Linguística Aplicada. As narrativas revelam que as migrantes enfrentam a imposição da língua portuguesa em detrimento do espanhol ao atender seus clientes. Elas veem a prostituição como uma ocupação legítima, livre de culpas ou preconceitos, em um processo de ressignificação de seu trabalho. Além disso, a memória e a identidade se entrelaçam em suas histórias, sendo que a principal preocupação das migrantes é trazer suas famílias da Venezuela para o Brasil, proporcionando melhores condições de vida aos familiares longe de seu país natal.