Resumo:
A tese busca reconstruir os espaços da cidade de Garibaldi apresentando-os como espacialidades produzidas por indivíduos e suas famílias no decorrer dos processos de migração e de formação dos bairros. Para isto, toma-se a vinícola Peterlongo e seus trabalhadores como objetos centrais da análise. Em um recorte temporal dos anos 1900 a 1960, que contempla o momento de emancipação política do município e o período de crescimento econômico da fábrica. A partir de um olhar sobre a decisão de migrar tomada por estes indivíduos, objetiva-se compreender em que medida o processo histórico da imigração italiana afetou as trajetórias de vida dos grupos parentais analisados. Ou seja, partindo do pressuposto que a colônia Conde D’Eu — hoje a cidade de Garibaldi — foi criada como espaço para o recebimento de famílias italianas, ela também recebeu imigrantes oriundos de outros países. Também é analisado o contexto de origem das famílias operárias, compreendendo os motivos que as levaram a optarem pelo trabalho operário, especialmente, na vinícola Peterlongo. Descrever os percursos de vida de algumas famílias operárias, a fim de detalhar as vivências desses trabalhadores em variados espaços e em diferentes papéis sociais exercidos ao longo de suas vidas. Contextualizaram-se os percursos de vida relacionando-os ao complexo enredo da dinâmica da vida humana, a fim de mostrar como as escolhas, os sucessos, os insucessos e as estratégias individuais, coletivas e familiares impactaram a estrutura de vida, de trabalho e de sociabilidade dos sujeitos estudados. O trabalho desenvolvido evidencia que as vias familiares funcionavam como canais privilegiados de acesso ao emprego na fábrica, constituindo não apenas uma forma de inserção econômica, mas também um mecanismo de reprodução e conformação social dos espaços urbanos próximos à unidade industrial. As relações de parentesco e de proximidade entre trabalhadores e o empregador revelam como os vínculos pessoais moldavam as oportunidades laborais e estruturavam a dinâmica comunitária, estabelecendo redes de confiança que ultrapassavam o âmbito estritamente profissional. A contribuição deste estudo reside justamente na demonstração de que o emprego na fábrica não se limitava à dimensão econômica, mas atuava como um elemento central na configuração social da cidade, mostrando como a história do trabalho e das famílias se entrelaçava com a organização do espaço urbano e com a vida coletiva.