Resumo:
O presente trabalho investiga a trajetória de Eufrásia Teixeira Leite, uma mulher pertencente a elite agrária do século XIX. A análise centra-se em sua migração para Paris e subsequente retorno ao Brasil no final dos anos 1920, explorando como, após herdar um significativo patrimônio, ela constituiu redes de sociabilidade transnacionais. Ancorada na História Social e inspirada pelos procedimentos metodológicos da Micro-História, a pesquisa toma a narrativa de vida da referida personagem como fio condutor para uma compreensão abrangente de fenômenos históricos mais amplos. Objetiva-se, portanto, analisar os fundamentos, desígnios e impactos de seu testamento, elucidando seu papel e suas contribuições nos âmbitos social, cultural, político e filantrópico. Ademais, busca-se identificar quais capitais – econômico, político, social e simbólico – foram mobilizados e acumulados por ela para assegurar a execução de suas disposições testamentárias. Por fim, mediante a consulta a fontes como periódicos, correspondência, cartões, o próprio documento de última vontade, o inventário e os recursos judiciais contra ele interpostos, examina-se o uso político desse instrumento legal como uma estratégia para reativar um projeto de progresso para o município de Vassouras. Nossa principal hipótese de trabalho foi que a trajetória de Eufrásia Teixeira Leite exemplifica uma forma singular, porém estruturalmente ancorada, de agência feminina na elite brasileira do século XIX e início do XX. Por meio de uma combinação de estratégias familiares, capital financeiro e inserção em redes sociais transnacionais, ela não apenas preservou, mas multiplicou significativamente o patrimônio herdado, subvertendo expectativas de gênero e utilizando seu testamento como um instrumento último de poder e para compor um projeto de modernidade e assistencialismo para sua cidade natal. A execução contestada desse testamento e os usos políticos subsequentes de seu legado revelam os conflitos, as negociações e as limitações da atuação de uma mulher de elite mesmo após a morte, tornando-a um caso privilegiado para se estudar as interseções entre gênero, riqueza, poder e memória na virada do século.