Abstract:
A presente tese, elaborada no Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da
Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), teve como temática central as
experiências de sofrimento psíquico de adolescentes. A pesquisa objetivou
compreender como os adolescentes vivenciam o sofrimento psíquico e o significado
das ações no mundo da vida, fundamentando-se na sociologia fenomenológica de
Alfred Schutz. O estudo qualitativo foi desenvolvido em uma escola pública do Rio
Grande do Sul, a partir de entrevistas individuais com 20 estudantes de 16 a 19 anos
realizadas em 2023. Permitiu-se interpretar as experiências dos adolescentes à luz
de conceitos como situação biográfica, estoque de conhecimento, motivações e
tipificações. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Unisinos
sob parecer número 6.186.778. Os resultados se desdobram em dois artigos: o
primeiro discute as motivações para o trabalho na adolescência, temática que surgiu
de forma significativa nas entrevistas e análises, enquanto o segundo volta-se às
experiências de sofrimento psíquico e ao significado da ação diante dessa vivência.
Os resultados do primeiro artigo evidenciaram que o trabalho na adolescência, ainda
que permeado por dificuldades, é significado pelos adolescentes como possibilidade
de autonomia, pertencimento e reconhecimento social, constituindo-se como ação
social situada e marcada por múltiplas motivações. O segundo artigo evidenciou que
o sofrimento psíquico emerge principalmente das fragilidades nas relações familiares
e escolares e se expressa na indizibilidade, frequentemente silenciada ou
banalizada pelos outros. As ações mobilizadas diante dessas vivências variaram
entre o silêncio, a autolesão, a busca de apoio e a construção de formas próprias de
ressignificação. A convergência entre os achados da tese demonstra que a
adolescência deve ser compreendida como experiência situada no mundo da vida, e
não apenas como uma etapa normativa do desenvolvimento, reconhecendo os
adolescentes como sujeitos de ação social. Ao problematizar fenômenos
frequentemente tratados de modo normativo ou patologizante, a tese contribui para
ampliar o debate sobre a adolescência e saúde mental no campo da Saúde Coletiva,
oferecendo subsídios para pesquisas futuras, políticas públicas e práticas de
cuidado que valorizem a singularidade dos adolescentes, fortaleçam a escuta
qualificada e ampliem as redes de apoio intersetoriais.