Resumo:
Esta tese investigou as relações entre resiliência, saúde mental e uso de substâncias em
estudantes do ensino superior, sob a ótica do Modelo Multissistêmico de Resiliência
(MSMR). A pesquisa foi estruturada através de três estudos que aprofundaram a compreensão do fenômeno. O Estudo 1 consistiu em uma revisão narrativa da literatura dos últimos 25 anos, que estabeleceu o arcabouço teórico da tese, justificou a adoção do MSMR e sintetizou o estado da arte sobre o tema. Os resultados indicam que a resiliência atua consistentemente como um fator de proteção para o sofrimento mental. O Estudo 2, de caráter quantitativo e transversal, analisou uma amostra de 357 estudantes universitários, mapeando as correlações entre as dimensões da resiliência (MSMR-I), indicadores de sofrimento psicológico (COREOM), uso de substâncias (AUDIT) e variáveis sociodemográficas. Os fatores sociodemográficos e contextuais mostraram-se moderadores importantes, com a resiliência externa associada a maior renda e à etnia branca, e a resiliência interna a comportamentos de saúde mais positivos. O Estudo 3, uma investigação quantitativa e longitudinal, acompanhou 169 estudantes de medicina ao longo de dois semestres letivos, analisando a evolução temporal dessas variáveis e suas inter-relações por meio de análises de redes e modelos de regressão. O resultado mais evidente, proveniente do estudo longitudinal, revela uma incongruência no processo adaptativo: embora a resiliência global dos estudantes tenha aumentado ao longo do tempo, os indicadores de sofrimento emocional (queixas e sintomas)
também se agravaram significativamente. Tal resultado sugere que, em ambientes de
sobrecarga, o desenvolvimento de recursos resilientes pode ocorrer como um mecanismo de adaptação que não necessariamente se traduz em bem-estar subjetivo, impondo um custo psicossocial. Conclui-se que a resiliência é um processo dinâmico e multissistêmico, cuja promoção eficaz no ensino superior demanda intervenções sociais e institucionais, focadas na criação de ambientes acadêmicos saudáveis e no fortalecimento dos sistemas de apoio (resiliência externa), em detrimento de abordagens centradas exclusivamente no indivíduo.