Entre heranças e rupturas: revisitando princípios e concepções de formação humana nas práticas curriculares

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Nome da instituição

Universidade do Vale do Rio dos Sinos

Departamento

Escola de Humanidades

Programa

Programa de Pós-Graduação em Educação

Agência de fomento

CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
Resumo

O presente estudo aborda o tema da formação humana nas práticas curriculares docentes desenvolvidas nos anos finais do ensino fundamental, em uma escola da rede pública municipal de São Leopoldo. A pesquisa teve como objetivo compreender os princípios e concepções de formação humana que orientam as práticas curriculares docentes. A metodologia da pesquisa-formação (Josso, 2007, 2010) foi utilizada para conduzir os docentes durante processos de reconstrução de si e de sua trajetória formativa, através de narrativas orais e escritas. Por meio de encontros inspirados pela cosmovisão africana, organizados a partir da simbologia Adinkra, os docentes puderam refletir, individual e coletivamente, sobre os princípios e concepções de formação humana, reconhecendo as diferentes influências que se manifestam nas suas práticas curriculares. Utilizando análise documental, o estudo analisou os reflexos práticos de duas políticas curriculares que se mostram divergentes em relação ao projeto de formação humana: a Base Nacional Comum Curricular - BNCC (Brasil, 2018), representando uma política de padronização, alinhada aos pressupostos do neoliberalismo educacional; e o Documento Orientador do Território do Currículo de São Leopoldo - DOCT-SL (São Leopoldo, 2021), que se declara uma política de base freireana, assumindo um papel de resistência frente às imposições neoliberais na educação. A fundamentação teórica teve como principais autores Charlot (2020); Freire (1987, 1996) e Nóvoa (2022), articulando suas ideias, através das categorias teóricas formação humana, políticas e práticas curriculares, aos escritos de Apple (2001, 2017); Arroyo (1999); Ball; Maguirre e Braun (2016); Biesta (2012, 2018); Dalbosco (2021); Dal’Igna (2023); Fritsch (2017); Laval e Vergne (2021); Leite e Fernandes (2010); Morin (2000, 2005) entre outros. Verificou-se que as práticas curriculares são organizadas a partir de princípios e concepções de formação humana que os docentes construíram ao longo de sua trajetória formativa, havendo pouca reflexão crítica e discussão coletiva sobre as políticas e demais elementos que neles interferem. O estudo identificou a presença de discursos e práticas contraditórias e incoerentes, em que discursos relacionados às teorias críticas e progressistas, com presença marcante das ideias freireanas, foram confrontados pela predominância de práticas curriculares conservadoras alinhadas ao projeto neoliberal. Apesar disso, verificou-se que os docentes reconhecem tais contradições, bem como as necessidades de mudança nas práticas, porém, tal reconhecimento em si, não é suficiente para mobilizar as transformações necessárias, já que existem muitos fatores envolvidos, incluindo questões internas ao próprio docente e todo processo de construção da sua pessoalidade e profissionalidade (Nóvoa, 2009). As pressões das políticas curriculares de padronização, performatividade e responsabilização, e as cobranças da sociedade, somadas às influências de uma trajetória formativa fortemente marcada por práticas conservadoras e/ou tradicionais, exigem dos docentes um movimento constante de reflexão e afirmação do que acreditam, junto aos colegas, no contexto da escola. Tal movimento reclama a construção de uma cultura de colegialidade e de outra institucionalidade na formação inicial e continuada (Nóvoa, 2009). A pesquisa-formação mostrou-se um potente recurso metodológico no sentido de provocar reflexões profundas sobre o fazer docente e sobre os princípios e concepções que norteiam as práticas curriculares. Tais reflexões e tomadas de consciência, em movimento espiral individual e coletivo, são imprescindíveis para um debate sobre a educação contemporânea como um bem público e um bem comum (Nóvoa, 2022), conduzindo a formação humana a partir dos princípios da solidariedade e da democracia.